Los reyes de la página roja...
Ok, muita gente nao sabe nem que El Salvador existe. Quando eu dizia que viria pra ca, sempre escutava: "mas porque logo na Bahia?" E eu tinha que responder, tal qual um salvadorenho no exterior, "El Salvador, America Central".
Nao to aqui pra avaliar o nivel de conhecimento das pessoas sobre o "pugarcito de america", eu mesma antes de vir aqui ano passado, so sabia o nome de país, a lingua e a moeda. A simpatia veio depois, bem devagar. E devagar tambem chegaram as minhas maos uns versos do Roque Dalton, poeta salvadorenho, assassinado em 1975 por seus companheiros, durante a guerra civil salvadorenha.
Ninguem precisa me conhecer muito para saber o quanto a literatura me encanta e como eu dedico tempo me encantando com ela. Todavia, cheguei aqui sem nunca ter lido um livro de literatura salvadorenha. E o mais curioso: as indicacoes de leitura faziam referencia sempre ao Roque Dalton. Quando muito, mencionavam Claudia Lars ou Salarrue. Isso comecou a me incomodar e o fato de nao encontrar livrarias e sebos me incomodava ainda mais e eu comecei a pensar que aquí inguem escreve e ninguem le.
Era 20 de abril, abri o jornal e la estava a revista dominical da Prensa Gráfica com o tema "literatura ou escritura". Me chamou a atencao por motivos obvios. A materia comeca bem crua. De cara, uma citacao do livro "El Asco" de Horacio Castillo Moya: "ninguem que se interesse por literatura pode optar por um pais tao degenerado como El Salvador, um pais onde ninguem le literatura e onde os poucos que podem ler jamais leriam um livro de literatura (...)". Ok, assustei, mas sigamos... o problema nao esta so na leitura ou na falta dela...
Em 2007 foram publicados mais de 400 livros. Quer dizer, esses 400 e poucos foram registrados e receberam seu ISBN, estima-se que esse numera seja ainda maior. Houve tambem uma proliferacao de oficinas literarias e um incremento no numero de editoras. Lembrei dos meus companheiros de casa salvadorenhos, a Nicia e o Camilo: "salvadorenhos se creem escritores..."
A materia segue nessa linha. "publicar em El Salvador parece ser bastante facil. A cada ano, por merito ou por dinheiro, centenas de livros sao publicados". Talvez seja engano meu, mas essa e uma mostra do velho costuma salvadorenho de nao acreditar no que o seu pais produz. As editoras ainda resistem muito em publicar um livro salvadorenho, embora admitam que todos os dias recebem autores em busca de imortalizar suas palavras atraves da publicacao de seus escritos. Quase totalidade deles recebem resposta negativa a seus pleitos, sempre sob a mesma alegacao: os livros nao sao bons. Diante disso, muitos autores se autopublicam. Foi o caso, por exemplo, de Salvador Sanchez Ceren (ex-guerrilheiro e candidato a vice-presidencia pela FMLN) e sua biografia "Con sueños se escribe la vida".
Percebem a trampa? Esse e mais um motivo para que eu siga categorizando El Salvador como um pais extremamente conservador. Nada alem de Roque Dalton ou Claudia Lars e bom. Ainda assim, sao publicados anualmente centenas de livros que ninguem le. O numero de editoras aumenta, escritores batem insistentemente em suas portas, mas nao sao publicados porque julgam que seus livros sao ruins. Jovens geralmente possuem ainda menos chances de serem publicados por julgarem que seus "metodos" nao se adequam ao que as editoras entendem por "literatura de verdade".
Resultado: um pais quase sem livrarias pq nao ha leitores. Um pais onde mesmo estudantes universitarios so leem o que lhes e pedido. Um pais onde a literatura e vista como leitura de segunda categoria nao por ser ruim, mas por nao ser considerada util. Um pais onde o quadro de escritores nao se renova com facilidade e livros de culinaria encabecam a lista dos mais vendidos. Um pais, nesse aspecto, triste. Ja dizia o Roque Dalton (por outros motivos, eu sei...), "os tristes mais tristes do mundo".
P.S: brigadinha pelas mensagens de aniversario.
P.S2: alguem pode me ensinar como se agrega links no texto?
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