jueves 13 de noviembre de 2008

O terceiro e último post sobre El Mozote, deveria ser sobre o massacre ocorrido em dezembro de 1981 nesse pequeno povoado de Morazán, oriente de El Salvador, fronteira com Honduras. Mas, lendo o livro "Las mil y una historias de Radio Venceremos", encontrei um relato de um dos locutores da rádio sobre o ocorrido lá. Achei que seria de maior relevância um testemunho ocular. Vou me ater apenas a incluir links ao longo do texto, mas aí abaixo segue o testemunho traduzido. Vale muito a pena ler "A maldição de Marcos Diaz", no blog Deiticos.


Quando soubemos do massacre, saímos de imediaro para comprová-la e gravar uma extensa reportagem para a Venceremos. A medida que nos aproximávamos de El Mozote, se sentia aquele cheiro penetrante dos cadáveres. A praça do povoado estava deserta, só se via pedaços de ropa ensangrentadas e alguns brinquedos abandonados. Por todas as partes as cápsulas dos fuzis norteamericanos M-16.


Na capela de Santa Catarina, tudo estava em ruínas, os bancos virados, os santos pelo chão, os muros perfurados de balas. A sacristía era uma monte de cadáveres apodrecendo, meio cobertos com as paredes do recinto.


Em El Mozote chegaram durante a noite. Como ladrões. À frente da tropa vinha o Coronel Domingos Monterrosa. Ele mesmo, em pessoa, ordenou à poppulação que se reunisse na capela, pois queria com eles falar. Monterrosa lhes prometeu que seriam evacuados pela Cruz Vermelha enquanto durasse o operativo contra os guerrilheiros. Em vez disso, o que fizeram foi dividí-los em grupos, homens pra un lado, mlheres para outro. As jovens foram levadas pelos oficiais para o monte La Cruz. Lá as mantiveram toda a noite, as estupraram e durante a madrugada, as mataram. Depois voltaram à capela, colocaram metralhadoras M-60 na entrada e metralharam a todos que estavam dentro. Enlouqueceram-se com o sangue. Começaram a perseguir a balas aos vizinhos, como se fosse uma caça. Com as crianças se exibiram mais. En El Mozote havia a tradição de fazer pão, então, os soldados pegavam as crianças, as colocavam nos fornos de pão e obrigavam as mães a atiçar o fogo. Não se acreditaria nessas coisas se não houvesse fotos e testemunhos.


Mas, não se conformaram com El Mozote. Dali foram para La Joya, para Los Toriles, Ranchería, La Chumpa... em todos os povoados da zona repetiram a mesma barbárie. Se contaram exatamente 1009 vítimas reconhecidas, com nome e sobrenome, em sua maioria, velhos e crianças.


Pela rádio começamos uma batalha informativa para denunciar o genocídio diante do país e do mundo. A Voz dos Estados Unidos não disse nada sobre o crime. O presidente Duarte apareceu sorridente na TV desmintindo o massacre e disse que tudo era um truque da Radio Venceremos para desprestigiar seu governo, que sempre demonstrara respeito aos Direitos Humanos. E mais respeituoso naqueles dias, quando o congresso norteamericano estava discutindo e aprovando a nova ajuda militar para El Salvador,


Lamentavelmente, não se tratava de nenhum exagero, nem de um desaforo dos soldados. Tudo tinha sido bem premeditado e assessorado pelos gringos. Eram as primeiras experiências de tática contra-insurgente, que consiste em aniquilar a base social da guerrilha. Tirar a água do peixe, como dizem eles.


E o que mais cólera me dá é que pela Venceremos eu mesmo havia avisado aos vizinhos, duas noites antes, que viria um grande operativo. Que deixassem o lugar conosco. Mas em EL Mozote havia muitos evangélicos, eram muito providencialistas e não compreenderam que não bastava rezar.


No dia seguinte à minha reportagem, em 31 de dezembro, fim de ano, chegou Rogelio para fazer uma missa em nosso acampamento guerrilheiro, encomendando a Deus as vidas daqueles mil campesinos que tinham sido sacrificados absurdamente por Monterrosa, por Duarte y Reagan.


(...)


Depois fui a El Mozote. Como os cadáveres não tinham sido bem enterrados, continuava o cheiro forte da descomposição. Tivemos que voltar a levantar os escombros da igreja, onde tinham sido enterrados precipitadamente, e fazer uma vala grande para evitar epidemias. Quando nos retiramos, vimos os letreiros pintados pelo Exército: "Aqui esteve o Batalhão Atlacatl, os anjinhos do inferno".