miércoles 16 de julio de 2008

Suco

Hoje eu queria escrever varias coisas. Comecei uns rabiscos sobre o que aqui chamamos de "la computadora de Raúl Reyes" e a suposta relacao de dirigentes da FMLN com as FARC. E tinha tambem outros rabiscos mais pessoais sobre os meus primeiros dias aqui.

Mas, andando pelo site do Samarone, li uma cronica que complementa o meu post anterior. Ele publicou as palavras de Aldemir Feliz, o Suco, 20 anos, pernambucano, morador de Brasilia Teimosa/Recife, que foi um de seus alunos da Oficina da Palavra, na escola Kabum!, que e parte de um projeto social promovido pela Oi em Recife. Suco era mais um recifense, morador de um bairro pobre, sem perspectivas e sem gosto pela leitura. No relato, ele conta como a Oficina mudou sua visao acerca da literatura e criou nele o amor pelos livros.

Transcrevo aqui um pouquinho das palavras do Suco. Sintam:

“No início eu não gostava de ler. Quando via as prateleiras das bibliotecas, achava que elas não diziam nada para mim. Na verdade, eu queria um livro que gritasse para mim. Eles permaneciam calados”.

“É muito difícil um jovem brasileiro, negro, ter acesso a livros bons. (...) Não conseguia interpretar um texto, meus erros de ortografia eram em grande escala. A escola era broxante e a falta de conhecimentos era gritante. (...) Quando a situação apertava na escola, eu ia nas bibliotecas da cidade, mas fazer o quê? Eu buscava respostas sobre o que eu sentia aos 17 anos”.

“Certa vez eu li oito horas sem parar. Comecei por volta de uma da tarde. Estava lendo “O Homem e seu algoz”, também de Fausto Wolff. São contos duros e crus, e passei a tarde no quarto. De lá, saía apenas para o banheiro, onde também ficava lendo. Fui vencido pela fome, às dez da noite”.

“Me apaixonei pela poesia quando conheci Miro, poeta recifense. Ele recitou alguns poemas em pleno Carnaval, na mesa onde eu estava. Passei mal. Definitivamente, senti algo que não consigo explicar. Naquela mesa, estava nascendo alguém que não era eu. Depois, passei a ler de verdade. Já tinha passado por Ferreira Gullar, Fausto Wolff, Josué de Castro, Eliane Brum, entre outros escritores modernos”

“A vida mudou e as coisas também. Eu estava sabendo usar a literatura como balança existencial. O que falta para o jovem ler é bons livros e mais bibliotecas. As pessoas ao meu redor passaram a tentar seguir meu exemplo, de ler por amor e paixão e repassar isso adiante. Amigos pegam livro comigo."

“Os livros traçaram meu destino. Eu cresci e não tinha nenhuma perspectiva. Quando me perguntavam - qual é a tua perspectiva de vida? -, eu não sabia o que dizer. Os livros me deram esta possibilidade: quero ser escritor. Me esforço para isso. Estou começando a escrever contos. Tenho também seis cadernos cheios de poesia”.


O paragrafo sobre o poeta recifense Miro, que recitava versos em pleno carnaval em uma mesa de bar, acenderam as minhas saudades do Recife. E engracado como la qualquer um pode encontrar um poeta, um louco no meio de uma praca que recita versos. No fundo, o cliche "Recife, capital da cultura" que as vezes me irritava, hoje me faz falta... festival de musica no metro, festival de cinema, encontros percursivos, domingo na rua, ensaio de maracatu na praca do arsenal... nada demais, eu sei. Mas sao exatamente essas coisinhas, que eram quase parte do cenario recifense, tao comuns que fazem a gente esnobar, que me fazem falta... El Salvador e um pais muito duro. As ruas nao tem a mesma poesia. A paisagem, por mais verde que seja, segue sem cor pra mim. Ja nao encontro Raimundo Carrero em uma livraria, nao avisto Siba em alguma rua do centro da cidade, nem as alfaias tocam durante a caminhada.

martes 15 de julio de 2008

Los reyes de la página roja...

Ok, muita gente nao sabe nem que El Salvador existe. Quando eu dizia que viria pra ca, sempre escutava: "mas porque logo na Bahia?" E eu tinha que responder, tal qual um salvadorenho no exterior, "El Salvador, America Central".
Nao to aqui pra avaliar o nivel de conhecimento das pessoas sobre o "pugarcito de america", eu mesma antes de vir aqui ano passado, so sabia o nome de país, a lingua e a moeda. A simpatia veio depois, bem devagar. E devagar tambem chegaram as minhas maos uns versos do Roque Dalton, poeta salvadorenho, assassinado em 1975 por seus companheiros, durante a guerra civil salvadorenha.

Ninguem precisa me conhecer muito para saber o quanto a literatura me encanta e como eu dedico tempo me encantando com ela. Todavia, cheguei aqui sem nunca ter lido um livro de literatura salvadorenha. E o mais curioso: as indicacoes de leitura faziam referencia sempre ao Roque Dalton. Quando muito, mencionavam Claudia Lars ou Salarrue. Isso comecou a me incomodar e o fato de nao encontrar livrarias e sebos me incomodava ainda mais e eu comecei a pensar que aquí inguem escreve e ninguem le.

Era 20 de abril, abri o jornal e la estava a revista dominical da Prensa Gráfica com o tema "literatura ou escritura". Me chamou a atencao por motivos obvios. A materia comeca bem crua. De cara, uma citacao do livro "El Asco" de Horacio Castillo Moya: "ninguem que se interesse por literatura pode optar por um pais tao degenerado como El Salvador, um pais onde ninguem le literatura e onde os poucos que podem ler jamais leriam um livro de literatura (...)". Ok, assustei, mas sigamos... o problema nao esta so na leitura ou na falta dela...

Em 2007 foram publicados mais de 400 livros. Quer dizer, esses 400 e poucos foram registrados e receberam seu ISBN, estima-se que esse numera seja ainda maior. Houve tambem uma proliferacao de oficinas literarias e um incremento no numero de editoras. Lembrei dos meus companheiros de casa salvadorenhos, a Nicia e o Camilo: "salvadorenhos se creem escritores..."

A materia segue nessa linha. "publicar em El Salvador parece ser bastante facil. A cada ano, por merito ou por dinheiro, centenas de livros sao publicados". Talvez seja engano meu, mas essa e uma mostra do velho costuma salvadorenho de nao acreditar no que o seu pais produz. As editoras ainda resistem muito em publicar um livro salvadorenho, embora admitam que todos os dias recebem autores em busca de imortalizar suas palavras atraves da publicacao de seus escritos. Quase totalidade deles recebem resposta negativa a seus pleitos, sempre sob a mesma alegacao: os livros nao sao bons. Diante disso, muitos autores se autopublicam. Foi o caso, por exemplo, de Salvador Sanchez Ceren (ex-guerrilheiro e candidato a vice-presidencia pela FMLN) e sua biografia "Con sueños se escribe la vida".

Percebem a trampa? Esse e mais um motivo para que eu siga categorizando El Salvador como um pais extremamente conservador. Nada alem de Roque Dalton ou Claudia Lars e bom. Ainda assim, sao publicados anualmente centenas de livros que ninguem le. O numero de editoras aumenta, escritores batem insistentemente em suas portas, mas nao sao publicados porque julgam que seus livros sao ruins. Jovens geralmente possuem ainda menos chances de serem publicados por julgarem que seus "metodos" nao se adequam ao que as editoras entendem por "literatura de verdade".

Resultado: um pais quase sem livrarias pq nao ha leitores. Um pais onde mesmo estudantes universitarios so leem o que lhes e pedido. Um pais onde a literatura e vista como leitura de segunda categoria nao por ser ruim, mas por nao ser considerada util. Um pais onde o quadro de escritores nao se renova com facilidade e livros de culinaria encabecam a lista dos mais vendidos. Um pais, nesse aspecto, triste. Ja dizia o Roque Dalton (por outros motivos, eu sei...), "os tristes mais tristes do mundo".


P.S: brigadinha pelas mensagens de aniversario.
P.S2: alguem pode me ensinar como se agrega links no texto?

jueves 10 de julio de 2008

Terapias...

Ja faz um bom tempo. O Ju me disse: "Ju, porque tu nao comeca a escrever?"
Nunca pensei seriamente nisso, embora tenha feito varias tentativas, rabiscos, tratados, ensaios.
Muita coisa ja aconteceu e desaconteceu. Ja vi, senti, ouvi e vivenciei (acho feio dizer "vivi") um amontoado consieravel de coisas. Como sempre, muitas delas, nunca vou poder comprovar atraves de uma foto, pois se bem me conhecem, sabem da minha relacao pouco amistosa com a minha amiga camera.

Nessa primeira incursao eu so queria dizer "oi" e que vou tentar deixa-los em dia sobre a minha ainda mal tracada experiencia centroamericana. Mas, como eu nao posso deixar de ser prolixa, ja to no segundo paragrafo e com planos para mais um.

Enfim, isso aqui sera algumas vezes sobre mim, pessoalmente falando. Outras vezes sera sobre El Salvador, sobre morar do lado direito de uma autopista, em San Salvador e estudar do lado esquerdo da mesma autopista e ja estar em La Libertad. Em alguns momentos, inevitavelmente, sera uma mescla das duas coisas. Noites loucas (em varios sentidos), dias corridos, problemas migratorios, extremos, nao poder andar de saia, guardinhas com armas imensas em todas as esquinas, carros que anseiam por te atropelar, o nascer do sol mais bonito que eu ja vi, imagens pitorescas, onibus suicidas. Apegos, desapegos, desassossegos. O amor, a cura, o medo, o frio na barriga, um mestrado. Sensacoes, comparacoes, elucubracoes, pensamentos insanos. Cajus no meu quintal, doces deliciosos, "era mais seguro andar nas ruas durante a guerra...". Darlen, Aleks, Elsy, Nicia, Juliana, Romeu, Fausto, Laura, Sandra, Alvaro e ate a Larita e quem mais aparecer, mas nao so por aparecer, todos terao um motivo e uma razao, porque se nao for assim, nao serve...