Suco
Mas, andando pelo site do Samarone, li uma cronica que complementa o meu post anterior. Ele publicou as palavras de Aldemir Feliz, o Suco, 20 anos, pernambucano, morador de Brasilia Teimosa/Recife, que foi um de seus alunos da Oficina da Palavra, na escola Kabum!, que e parte de um projeto social promovido pela Oi em Recife. Suco era mais um recifense, morador de um bairro pobre, sem perspectivas e sem gosto pela leitura. No relato, ele conta como a Oficina mudou sua visao acerca da literatura e criou nele o amor pelos livros.
Transcrevo aqui um pouquinho das palavras do Suco. Sintam:
“É muito difícil um jovem brasileiro, negro, ter acesso a livros bons. (...) Não conseguia interpretar um texto, meus erros de ortografia eram em grande escala. A escola era broxante e a falta de conhecimentos era gritante. (...) Quando a situação apertava na escola, eu ia nas bibliotecas da cidade, mas fazer o quê? Eu buscava respostas sobre o que eu sentia aos 17 anos”.
“Certa vez eu li oito horas sem parar. Comecei por volta de uma da tarde. Estava lendo “O Homem e seu algoz”, também de Fausto Wolff. São contos duros e crus, e passei a tarde no quarto. De lá, saía apenas para o banheiro, onde também ficava lendo. Fui vencido pela fome, às dez da noite”.
“Me apaixonei pela poesia quando conheci Miro, poeta recifense. Ele recitou alguns poemas em pleno Carnaval, na mesa onde eu estava. Passei mal. Definitivamente, senti algo que não consigo explicar. Naquela mesa, estava nascendo alguém que não era eu. Depois, passei a ler de verdade. Já tinha passado por Ferreira Gullar, Fausto Wolff, Josué de Castro, Eliane Brum, entre outros escritores modernos”
“A vida mudou e as coisas também. Eu estava sabendo usar a literatura como balança existencial. O que falta para o jovem ler é bons livros e mais bibliotecas. As pessoas ao meu redor passaram a tentar seguir meu exemplo, de ler por amor e paixão e repassar isso adiante. Amigos pegam livro comigo."
“Os livros traçaram meu destino. Eu cresci e não tinha nenhuma perspectiva. Quando me perguntavam - qual é a tua perspectiva de vida? -, eu não sabia o que dizer. Os livros me deram esta possibilidade: quero ser escritor. Me esforço para isso. Estou começando a escrever contos. Tenho também seis cadernos cheios de poesia”.
O paragrafo sobre o poeta recifense Miro, que recitava versos em pleno carnaval em uma mesa de bar, acenderam as minhas saudades do Recife. E engracado como la qualquer um pode encontrar um poeta, um louco no meio de uma praca que recita versos. No fundo, o cliche "Recife, capital da cultura" que as vezes me irritava, hoje me faz falta... festival de musica no metro, festival de cinema, encontros percursivos, domingo na rua, ensaio de maracatu na praca do arsenal... nada demais, eu sei. Mas sao exatamente essas coisinhas, que eram quase parte do cenario recifense, tao comuns que fazem a gente esnobar, que me fazem falta... El Salvador e um pais muito duro. As ruas nao tem a mesma poesia. A paisagem, por mais verde que seja, segue sem cor pra mim. Ja nao encontro Raimundo Carrero em uma livraria, nao avisto Siba em alguma rua do centro da cidade, nem as alfaias tocam durante a caminhada.