O texto a seguir vai ser postado em 2 partes. Tenham paciencia, logo entenderao o que é a foto. Enquanto isso, um pouquinho de um dos episodios da guerra civil salvadoreña.
Trata-se de uma foto do Jardin de Rosas, contiguo ao Centro Monseñor Romero, na Universidad Centroamericana José Simeón Cañas (UCA), onde estudo.
Em 16 de novembro de 89, Ignacio Ellacuría (reitor da universidade), Ignacio Martín-Baró (vice-reitor academico), Segundo Montes (diretor do Instituto de Directos Humanos da UCA), Juan Ramón Moreno (diretor da biblioteca de teologia da UCA), Amado López (profesor de filosofia) y Joaquín López y López, todos jesuitas espanhóis, foram assassinados por um pelotao do Batalhao Atlacatl da Forca Armada de El Salvador. Por terem presenciado a execucao, Elba e Celina Ramos, mae e filha que cuidavam da casa dos Jesuitas, tambem foram assassinadas.
Seguindo a tradicao progressista da Universidade, todos os padres eram “partidarios” da teologia da libertacao, corrente teologica que ganhou grande forca na America Latina nos anos 70, que buscava entender e ensinar aos cristaos a entender como poderia a fe nao ser alienante, senao libertadora. Ignacio Ellacuria era um dos expoentes dessa corrente catolica.
Em 11 de novembro de 89, a Farabundo Marti de Libertacao Nacional comecou o que seria a maior ofensiva urbana da guerra civil salvadoreña. Atacaram diversos pontos da capital de El Salvador, San Salvador. “Ate entao, quem queria viver um pouco mais de tranquilidade – ainda que os militares nao deixassem nunca de joder o povo – tinha que vir para zona central ou ocidental do pais. Era o tempo em que eu ainda podia caminhar nas ruas do Centro a noite, sem medo das maras. Mas, isso ate que a FMLN atacou com forca San Salvador em 89. Depois desse dia, ninguem sabia mais o que estava acontecendo” (Nicia Alvarenga, 43).
Naquele 11 de novembro, a guerrilla atacou simultáneamente varios pontos da capital, sendo os combates mais demorados perto da Universodade Nacional e ao longo da Autopista Sur, onde estao o Estadio Cuscatlan e algunas colonias militares que estao justamente em frente a UCA (vulgo “justamente onde eu moro”).
Durante as primeiras horas da ofensiva, emisoras de radio cubriam os combates por toda a cidade. Jornalistas e moradores dos lugares de combate telefonavam ao vivo para informar a gravidade dos ataques ou apenas para mandar noticias a seus familiares. Horas depois, todas as radios receberam ordens de cortar as informacoes e conectar-se a Radio Cuscatlan, a radio da Forca Armada salvadoreña. O conteudo das ligacoes mudaram radicalmente e comecaram a ir ao ar mensagens de odio, denuncias falsas e ataques contra sindicatos, igrejas (sobretudo as progresistas. E a de San Salvador era uma delas) e ONGs, todos acusados de serem fachadas da guerrilla. Em pouco tempo, comecaram a pedir acoes energicas contra esses grupos e, inclusive, contra pessoas. O reitor da UCA, Ignacio Ellacuria era um dos nomes mais falados: “Ellacuria es un guerrillero. ¡que le corten la cabeza!” As forcas conservadoras do país consideravam que Ellacuria tinha envenenado as mentes da juventude salvadoreña com seus encinos na UCA e no Externato San Jose.
No dia 12 de novembro, depois de receberem a noticia que um grupo de guerrilheiros havia entrado na UCA, um grupo de militares deslocou-se ate a universidade para “averiguar” o que de fato havia acontecido. "Desde ese momento, un grupo de militares se ubicó a la entrada de las instalaciones universitarias, registrando a todo el que entrara o saliera y, desde el lunes, impidiendo la entrada o salida de toda persona" (Martin-Baró, vice-reitor academico da UCA).
Dada a sua proximidade das principais instalacoes militares da capital, a Colonia Jardines de Guadalupe, onde se situa a UCA, passou a ser ocupada por soldados desde entao. Segundo as forcas militares, desde o incidente da entrada de guerrilheiros na UCA, eles comecaram a receber chamadas telefonicas anonimas que asseguravam que na Universidade havia transito frequente de guerrilheiros e ali eles escondiam armamento. Em geral, armas abandonadas nao eram nenhum risco, admitem os proprios militares, ja que quando fugiam, os guerrilheiros preferiam deixar os equipamentos. Todavía, insistiram em ligar as armas com os jesuitas e identifica-los como simpatizantes ou mesmo potenciais combatentes da FMLN.
Ignacio Ellacuria nao estava em El Salvador quando comecou a ofensiva urbana da FMLN. Estava na Espanha, onde recebeu um premio em nome da UCA e tambem para participar de uma serie de reunioes. Ainda na Espanha tinha recebido um fax do presidente de El Salvador, que lhe informava sobre os ultimos acontecimentos do pais e sobre um atentado contra a sede da federacao de sindicatos FENASTRAS, que havia gerado grande indignacao no pais. O presidente lhe convidou para conformar um grupo de trabalho para investigar o atentado. Ellacuria tambem era conhecido como ferrenho defensor dos direitos humanos e da justica. Respondeu ao presidente que voltaria ao pais, se colocaria a par da situacao, procuraria entender o que havia ocorrido nos dias em que esteve fora para a partir dai avaliar sua participacao neste grupo de trabalho.
"Nunca. No tengo miedo. No es un sentimiento que normalmente me invada. ¡Sería tan irracional que me matasen! No he hecho nada malo." (Ignacio Ellacuria, dias antes de voltar a El Salvador em entrevista ao jornal Avui, de Barcelona).
Em 13 de novembro, Ellacuria voltou ao pais. Ao chegar ao portao principal da UCA, os soldados que ali estavam lhe detiveram, ja que nao era possivel que ninguem entrasse ou saisse da Universidade. Quando souberam que se tratava do reitor da universidade, "déjenlo entrar, que es el padre".