sábado 22 de noviembre de 2008

Oscar Arnulfo Romero, Monseñor.

Monseñor Oscar Arnulfo Romero tornou-se um reconhecido crtítico da violência e da injustiça social em El Salvador. Suas mensagens, que irritavam profundamente aos círculos da direita e dos militares salvadorenhos, incluíam informações de atos de violações dos direitos humanos, denúncias coletadas pelo escritório do Socorro Jurídico do Arcebispado.

Contra ele, muitas vezes, jornais favoráveis ao governo escreviam notas hostis e pouco respeitosas: “será conveniente que as Forças Armadas comecem a lubrificar seus fuzis”. A resposta de Romero às provocações era dada em suas pregações: “nem a Junta de Governo, nem os democratas-cristãos governam o país. O poder político está nas mãos da Força Armada. Eles usam seu poder inescrupulosamente. Sabem apenas como reprimir o povo e defender os interesses da oligarquia salvadorenha”.

Em fevereiro de 1980 começaram as ameaças ao Arcebispo. Dois dias antes de sua morte, as religiosas que trabalhavam no Hospital da Divina Providência receberam chamadas telefônicas anônimas que os ameaçava de morte. Em virtude disso, Monseñor Romero impediu que seus colaboradores lhe acompanhassem em suas saídas.

Em sua pregação de domingo, 23 de março de 1980, véspera de seu assassinato, o Arcebispo fez uma exortação aos próprios soldados salvadorenhos:

“Quero fazer um chamado de maneira especial aos homens do exército, especificamente, às bases da Guarda Nacional, da polícia e dos quartéis: irmãos, vocês são parte deste povo e matam aos seus próprios irmãos camponeses! E ante uma ordem de matar que dê um homem, deve prevalecer a lei de Deus, que diz: não matarás! Nenhum soldado está obrigado a obedecer a uma ordem contra a lei de Deus. Uma lei imoral ninguém tem que cumprir. Já é tempo de que recuperem suas consciências e que obedeçam, antes, suas consciências do que a ordem do pecado. A igreja, defensora da lei de Deus, da dignidade humana, da pessoa, não pode ficar calada ante tanta abominação. Queremos que o governo entenda que as reformas de nada servem se estão tingidas com tanto sangue. Em nome de Deus e em nome desse sofrido povo, cujo lamento sobe ao céu cada vez mais tumultuoso, lhes suplico, lhes rogo, lhes ordeno: cessem a repressão!”

No dia seguinte, 24 de março, Romero foi assassinado enquanto oficiava uma missa na capela do Hospital da Divina Providência. De acordo com o informe da Comisión de la Verdad, o Major Roberto D’Aubuisson deu a ordem de assassinar ao arcebispo e deu instruções precisas a membros de sua segurança, que atuavam como esquadrão da morte (segundo o próprio informe) de organizar e supervisionar a execução do assassinato.

Conhece-se também a identidade dos que executaram as ordens do Major D’Aubuisson: Álvaro Saravia, Eduardo Avila, Fernando Sagera e Mario Molina. Mas, a investigação do caso, diz o informe “resultou ademais de ineficaz, muito controvertida e repleta de motivações políticas”.
Em maio de 1980 foram capturadas na Chácara San Luis, em Santa Tecla, 24 pessoas entre militares e civis. No lugar encontraram o que se conhece por “Agenda Saravia”, em alusão a um dos presos, o Capitão Álvaro Rafael Saravia. Roberto D’Aubuisson também foi levado pela polícia nessa ocasião. Para o grupo essa foi a primeira acusação formal que receberam por conspiração para derrubar o governo por meio de um golpe de estado. Entre os documentos achados encontrou-se uma “relação de acusações feitas por informante sul-americano contra Monseñor Oscar Arnulfo Romero, Arcebispo de El Salvador”. Na agenda encontravam-se dados relevantes a respeito do assassinato do Arcebispo, ademais dos nomes de várias pessoas que, comprovadamente, participaram do encobrimento do assassinato.

Um terceiro documento (que comprovaria a ligação dos presos com os esquadrões da morte) é o entitulado “quadro geral da organização da luta anti-marxista em El Salvador”. O documento traçava como meta tomar o poder em El Salvador e contava com um plano de atividades que se desenvolveria com a finalidade de atingir tal meta, entre as quais estão: “atividades de redes de combate” e “atentados individuais”.

Nenhum dos documentos apreendidos na chácara San Luis foi colocada à disposição do juizado que cuidou do caso. O Major D’Aubuisson nunca foi sentenciado, assim como seus “companheiros” de esquadrão. Anos depois, foram colocadas à disposição da justiça cópias da agenda, mas os originais nunca foram entregues. O Major Roberto D’Aubuisson morreu em 20 de fevereiro de 1992, vítima de câncer, sem nunca ter respondido por nenhuma das mortes perpetradas pelos esquadrões da morte, criados por ele, e que aterrorizaram El Salvador durante a guerra civil dos anos 80.

jueves 13 de noviembre de 2008

O terceiro e último post sobre El Mozote, deveria ser sobre o massacre ocorrido em dezembro de 1981 nesse pequeno povoado de Morazán, oriente de El Salvador, fronteira com Honduras. Mas, lendo o livro "Las mil y una historias de Radio Venceremos", encontrei um relato de um dos locutores da rádio sobre o ocorrido lá. Achei que seria de maior relevância um testemunho ocular. Vou me ater apenas a incluir links ao longo do texto, mas aí abaixo segue o testemunho traduzido. Vale muito a pena ler "A maldição de Marcos Diaz", no blog Deiticos.


Quando soubemos do massacre, saímos de imediaro para comprová-la e gravar uma extensa reportagem para a Venceremos. A medida que nos aproximávamos de El Mozote, se sentia aquele cheiro penetrante dos cadáveres. A praça do povoado estava deserta, só se via pedaços de ropa ensangrentadas e alguns brinquedos abandonados. Por todas as partes as cápsulas dos fuzis norteamericanos M-16.


Na capela de Santa Catarina, tudo estava em ruínas, os bancos virados, os santos pelo chão, os muros perfurados de balas. A sacristía era uma monte de cadáveres apodrecendo, meio cobertos com as paredes do recinto.


Em El Mozote chegaram durante a noite. Como ladrões. À frente da tropa vinha o Coronel Domingos Monterrosa. Ele mesmo, em pessoa, ordenou à poppulação que se reunisse na capela, pois queria com eles falar. Monterrosa lhes prometeu que seriam evacuados pela Cruz Vermelha enquanto durasse o operativo contra os guerrilheiros. Em vez disso, o que fizeram foi dividí-los em grupos, homens pra un lado, mlheres para outro. As jovens foram levadas pelos oficiais para o monte La Cruz. Lá as mantiveram toda a noite, as estupraram e durante a madrugada, as mataram. Depois voltaram à capela, colocaram metralhadoras M-60 na entrada e metralharam a todos que estavam dentro. Enlouqueceram-se com o sangue. Começaram a perseguir a balas aos vizinhos, como se fosse uma caça. Com as crianças se exibiram mais. En El Mozote havia a tradição de fazer pão, então, os soldados pegavam as crianças, as colocavam nos fornos de pão e obrigavam as mães a atiçar o fogo. Não se acreditaria nessas coisas se não houvesse fotos e testemunhos.


Mas, não se conformaram com El Mozote. Dali foram para La Joya, para Los Toriles, Ranchería, La Chumpa... em todos os povoados da zona repetiram a mesma barbárie. Se contaram exatamente 1009 vítimas reconhecidas, com nome e sobrenome, em sua maioria, velhos e crianças.


Pela rádio começamos uma batalha informativa para denunciar o genocídio diante do país e do mundo. A Voz dos Estados Unidos não disse nada sobre o crime. O presidente Duarte apareceu sorridente na TV desmintindo o massacre e disse que tudo era um truque da Radio Venceremos para desprestigiar seu governo, que sempre demonstrara respeito aos Direitos Humanos. E mais respeituoso naqueles dias, quando o congresso norteamericano estava discutindo e aprovando a nova ajuda militar para El Salvador,


Lamentavelmente, não se tratava de nenhum exagero, nem de um desaforo dos soldados. Tudo tinha sido bem premeditado e assessorado pelos gringos. Eram as primeiras experiências de tática contra-insurgente, que consiste em aniquilar a base social da guerrilha. Tirar a água do peixe, como dizem eles.


E o que mais cólera me dá é que pela Venceremos eu mesmo havia avisado aos vizinhos, duas noites antes, que viria um grande operativo. Que deixassem o lugar conosco. Mas em EL Mozote havia muitos evangélicos, eram muito providencialistas e não compreenderam que não bastava rezar.


No dia seguinte à minha reportagem, em 31 de dezembro, fim de ano, chegou Rogelio para fazer uma missa em nosso acampamento guerrilheiro, encomendando a Deus as vidas daqueles mil campesinos que tinham sido sacrificados absurdamente por Monterrosa, por Duarte y Reagan.


(...)


Depois fui a El Mozote. Como os cadáveres não tinham sido bem enterrados, continuava o cheiro forte da descomposição. Tivemos que voltar a levantar os escombros da igreja, onde tinham sido enterrados precipitadamente, e fazer uma vala grande para evitar epidemias. Quando nos retiramos, vimos os letreiros pintados pelo Exército: "Aqui esteve o Batalhão Atlacatl, os anjinhos do inferno".