Oscar Arnulfo Romero, Monseñor.
Monseñor Oscar Arnulfo Romero tornou-se um reconhecido crtítico da violência e da injustiça social em El Salvador. Suas mensagens, que irritavam profundamente aos círculos da direita e dos militares salvadorenhos, incluíam informações de atos de violações dos direitos humanos, denúncias coletadas pelo escritório do Socorro Jurídico do Arcebispado.
Contra ele, muitas vezes, jornais favoráveis ao governo escreviam notas hostis e pouco respeitosas: “será conveniente que as Forças Armadas comecem a lubrificar seus fuzis”. A resposta de Romero às provocações era dada em suas pregações: “nem a Junta de Governo, nem os democratas-cristãos governam o país. O poder político está nas mãos da Força Armada. Eles usam seu poder inescrupulosamente. Sabem apenas como reprimir o povo e defender os interesses da oligarquia salvadorenha”.
Em fevereiro de 1980 começaram as ameaças ao Arcebispo. Dois dias antes de sua morte, as religiosas que trabalhavam no Hospital da Divina Providência receberam chamadas telefônicas anônimas que os ameaçava de morte. Em virtude disso, Monseñor Romero impediu que seus colaboradores lhe acompanhassem em suas saídas.
Em sua pregação de domingo, 23 de março de 1980, véspera de seu assassinato, o Arcebispo fez uma exortação aos próprios soldados salvadorenhos:
“Quero fazer um chamado de maneira especial aos homens do exército, especificamente, às bases da Guarda Nacional, da polícia e dos quartéis: irmãos, vocês são parte deste povo e matam aos seus próprios irmãos camponeses! E ante uma ordem de matar que dê um homem, deve prevalecer a lei de Deus, que diz: não matarás! Nenhum soldado está obrigado a obedecer a uma ordem contra a lei de Deus. Uma lei imoral ninguém tem que cumprir. Já é tempo de que recuperem suas consciências e que obedeçam, antes, suas consciências do que a ordem do pecado. A igreja, defensora da lei de Deus, da dignidade humana, da pessoa, não pode ficar calada ante tanta abominação. Queremos que o governo entenda que as reformas de nada servem se estão tingidas com tanto sangue. Em nome de Deus e em nome desse sofrido povo, cujo lamento sobe ao céu cada vez mais tumultuoso, lhes suplico, lhes rogo, lhes ordeno: cessem a repressão!”
No dia seguinte, 24 de março, Romero foi assassinado enquanto oficiava uma missa na capela do Hospital da Divina Providência. De acordo com o informe da Comisión de la Verdad, o Major Roberto D’Aubuisson deu a ordem de assassinar ao arcebispo e deu instruções precisas a membros de sua segurança, que atuavam como esquadrão da morte (segundo o próprio informe) de organizar e supervisionar a execução do assassinato.
Conhece-se também a identidade dos que executaram as ordens do Major D’Aubuisson: Álvaro Saravia, Eduardo Avila, Fernando Sagera e Mario Molina. Mas, a investigação do caso, diz o informe “resultou ademais de ineficaz, muito controvertida e repleta de motivações políticas”.
Em maio de 1980 foram capturadas na Chácara San Luis, em Santa Tecla, 24 pessoas entre militares e civis. No lugar encontraram o que se conhece por “Agenda Saravia”, em alusão a um dos presos, o Capitão Álvaro Rafael Saravia. Roberto D’Aubuisson também foi levado pela polícia nessa ocasião. Para o grupo essa foi a primeira acusação formal que receberam por conspiração para derrubar o governo por meio de um golpe de estado. Entre os documentos achados encontrou-se uma “relação de acusações feitas por informante sul-americano contra Monseñor Oscar Arnulfo Romero, Arcebispo de El Salvador”. Na agenda encontravam-se dados relevantes a respeito do assassinato do Arcebispo, ademais dos nomes de várias pessoas que, comprovadamente, participaram do encobrimento do assassinato.
Um terceiro documento (que comprovaria a ligação dos presos com os esquadrões da morte) é o entitulado “quadro geral da organização da luta anti-marxista em El Salvador”. O documento traçava como meta tomar o poder em El Salvador e contava com um plano de atividades que se desenvolveria com a finalidade de atingir tal meta, entre as quais estão: “atividades de redes de combate” e “atentados individuais”.
Nenhum dos documentos apreendidos na chácara San Luis foi colocada à disposição do juizado que cuidou do caso. O Major D’Aubuisson nunca foi sentenciado, assim como seus “companheiros” de esquadrão. Anos depois, foram colocadas à disposição da justiça cópias da agenda, mas os originais nunca foram entregues. O Major Roberto D’Aubuisson morreu em 20 de fevereiro de 1992, vítima de câncer, sem nunca ter respondido por nenhuma das mortes perpetradas pelos esquadrões da morte, criados por ele, e que aterrorizaram El Salvador durante a guerra civil dos anos 80.
